A neblina durante a aterragem em Estocolmo gora a minha expectativa de poder apreciar as paisagens verdes à altura dos pássaros. Antes de sair do avião, os suecos –

que se distinguem mais pela postura do que pela pele, olhos claros e pelo mito do cabelo loiro – começam a equipar-se: um casaco, um blusão, cachecol e luvas fazem parte da roupa no início do mês de Outubro. São estas as primeiras impressões que o país me deixa e que me fazem pensar que, de facto, o clima de Portugal é quase uma bênção.

No entanto, mal me dirijo para a zona de recolha de bagagem começam a surgir os primeiros sinais do genoma organizado dos nórdicos. Os tapetes onde esperamos as malas indicam com precisão que faltam dez minutos para aparecer a primeira (e é verdade). Tempo de sobra para ler os anúncios que estão por todo o lado e que nos garantem que a melhor forma de ir do Aeroporto de Arlanda até ao centro de Estocolmo é de comboio ou de autocarro. Numa frase tudo é resumido: “Be cheap for nature’s sake. Reduce both your costs and your emissions” [Gaste pouco, para bem da natureza. Reduza os seus custos e as suas emissõs]. Foi este o primeiro contacto que tive com a Suécia Verde.

Opto pelo comboio expresso que demora apenas 20 minutos a percorrer a distância e que atinge velocidades superiores aos 200 quilómetros por hora – tanto como o Alfa Pendular, o comboio mais rápido que circula nas linhas portuguesas. E descubro que esta é mesmo a melhor forma de viajar até ao centro. Não é preciso sair do aeroporto, basta descer umas escadas rolantes, que nos poupam à chuva que também parece ser o cartão de visita do país.

Já na linha, à espera do “Arlanda Express”, que recolhe passageiros dos cinco terminais do aeroporto, aproveito os seis minutos que faltam para o comboio chegar (e é verdade) para analisar melhor a estação. Nova surpresa. Apesar do preço do bilhete ser efectivamente caro para nível de vida médio de um português (cerca de 22 euros) há vários incentivos e descontos para promover os transportes públicos. Os idosos (mais de 65 anos) e os jovens (até aos 25 anos inclusive) pagam metade. As famílias com três filhos pagam também bastante menos durante os fins-de-semana. Há ainda outros descontos mas cuja explicação aparece em sueco, pelo que seis minutos não foram suficientes para decifrar a mensagem. De qualquer maneira, se tivesse optado por ir de táxi até ao centro da capital sueca, pagaria qualquer coisa como 55 euros.

Mesmo sabendo que a viagem será curta levo comigo um dos jornais gratuitos do país, o “Dagens Industri” que tem como tema de primeira página a crise da bolsa de Nova Iorque. Mas esperem, se há gratuitos como em Portugal porque não os vejo espalhados pelo chão, nos carris ou atafulhados em mini caixotes do lixo? A resposta está ao lado, do sítio onde recolhemos o jornal, e repete-se em vários pontos da estação. Um ecoponto específico para reciclagem de jornais. Uma solução simples mas bastante eficaz.

O comboio chega. Nova dúvida. Pergunto a um sueco se não há distinção entre primeira e segunda classe pois as carruagens pareceram-me todas demasiado confortáveis. Na sua simpatia contida diz-me apenas que me posso sentar onde quiser. A bordo alguns panfletos com mapas e informações sobre a cidade podem ser recolhidos e, claro, os horários e organigramas dos transportes públicos também.

Saio do “Arlanda Express” com a promessa de voltar no dia de regresso. O primeiro contacto com o ar da cidade faz-me achar que o comandante do avião foi demasiado generoso quando disse que a temperatura local era de cerca de dez graus. A caminho do hotel só as beatas dos cigarros contrastam com a limpeza do chão. Fico contente por saber que pelo menos para elas ainda não deve haver ecopontos e que talvez possamos ser pioneiros nisso.

 

 

(Na estação de comboios há um ecoponto específico para a reciclagem de jornais)

 

Romana Borja-Santos

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