O paraíso fica apenas dez quilómetros a norte de Estocolmo, está rodeado de água e chama-se Danderyd. Sendo mais preciso, fica na pequena comunidade de Enebyberg e, ao contrário do que dizem os livros, não precisamos de estar mortos para entrar nele. Pelo contrário, a única coisa necessária é mesmo querermos preservar o nosso planeta, isto é, poupar recursos para que as futuras gerações possam desfrutar das mesmas coisas que nós – ou de melhores.

Já imaginou que pode recolher o calor do sol durante o Verão e armazená-lo em rochas para aquecer uma casa no Inverno? Esta é a ideia do projecto coordenado pelo engenheiro sueco reformado Stig Ram e que ficou completo em 2002: 50 casas entre os 64 e os 124 metros quadrados cujos telhados são cobertos por 2400 metros quadrados de painéis solares, que se distinguem dos painéis fotovoltaicos por não servirem para a produção de electricidade mas sim para aquecer a água do banho ou a que circula nos aquecimentos das casas – a grande despesa neste país frio.

A inovação está no armazenamento. Até agora o problema com os painéis é que apenas nos dias de bom tempo era garantido ao morador que poderia aproveitar a energia do sol. Por isso, ao pé desta vila, Stig Ram preparou qualquer coisa como 60 mil metros quadrados de rochas de granito, a 65 metros de profundidade, para armazenarem toda a energia não necessária, conservando o calor da água que circula pelo complexo sistema de 26 quilómetros de tubos. A ideia é que mesmo nos Invernos rigorosos da Suécia, em que as temperaturas podem chegar aos 20 graus negativos, os moradores possam aproveitar o sol para a água do banho e para os aquecimentos. As rochas garantem uma temperatura entre os 35 e os 45 graus, mesmo quando o clima é mais rigoroso.

E o resultado não podia ser melhor: é garantida uma poupança de mais de 60 por cento da energia que seria necessária para estas actividades, o que implica menos 300 a 450 toneladas de dióxido de carbono na atmosfera por ano. O resto também está pensado para ser verde: os materiais das casas são ecológicos, as lâmpadas e os electrodomésticos economizadores, e as janelas e portas grossas e muito bem isoladas. Os espaços verdes à volta completam a calma e tranquilidade necessária para quem procura qualidade de vida (a maioria dos moradores tem mais de 50 anos e já está reformada). O preço das casas varia com o tamanho, mas 100 metros quadrados custavam no início cerca de 200 mil euros. Contudo, algumas casas em segunda mão já são vendidas quase pelo dobro.

Desvantagens: segundo me contou um morador, no início o sistema teve muitos problemas porque os tubos tiveram furos e foi necessário substituir os 26 quilómetros. O “inventor” garante que já está tudo solucionado e que só o entristece terem asfalto nas estradas da vila, que inicialmente eram de terra. No entanto, explica que a mudança foi necessária por causa da neve no Inverno. Stig Ram gostaria também de “reciclar” a urina para evitar que as suas bactérias se infiltrassem na terra, já que todo o sistema depende da água que ai circula, mas a ideia falhou.

Questionado sobre a possibilidade de implementar este projecto em larga escala reconhece que seria muito difícil, pois é necessária uma boa exposição solar e granito e os custos são avultados. Este parece-me ser o principal problema dos suecos: têm óptimas soluções mas que só funcionam em pequena escala. Além disso, mesmo vivendo numa casa tão “verde”, são incapazes de abdicar dos carros de alta cilindrada. O morador com quem falei lavava com uma mangueira um Mercedes e perguntou-me: “Só porque tenho uma casa destas pensa que tenho um carro a etanol? Se calhar devia…”. Não acho que seja obrigatório, mas seria mais coerente. Do que tenho visto, os suecos sentem-se moralmente obrigados a fazer pelo menos uma coisa pelo Ambiente. Este já contribui com a casa.

 

(O sistema permite poupar 60 por cento da energia gasta em aquecimento e água quente)

 

 

 

Romana Borja-Santos

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